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Erguer o trigo

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Ia eu a caminho de Lamego, onde estive nos últimos dias, quando no Mezio vi uma coisa que há décadas não via, e que só as mulheres faziam que era "erguer o trigo". Esta expressão era dita pelas mulheres quando iam purificar os grãos de centeio ou de trigo. A técnica não podia ser mais simples e prática: num dia de vento brando, estendia-se no chão uma manta e a mulher pegava numa bacia com os grãos de trigo que tinha malhado e erguia-o mais alto que a cabeça e deixava ir caindo os grãos enquanto o vento se encarregava de levar com ele as praganas e outras impurezas leves. Como dizia, ha pelo menos mais de 20 anos que não via nenhuma mulher fazer este trabalho tão puxado e tão elegante. Mas, desta vez, apesar da técnica ser a mesma daqueles tempos, alguma coisa mudou: a senhora estava em cima do telhado plano da casa e o marido ajudava-a, ao seu lado. E ficou-me esta imagem, não sabendo eu quando é que volto a ver, se é que voltarei ver, mas deu para voltar atrás e matar a s…

Paciência e oração

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Paciência não é a minha maior virtude. Há o ditado que diz que quem espera sempre alcança, mas não me serve. Mais bem me serviria o "quem espera desespera". Mas a vida é feita de trabalho: manual, mental e também interior. Ir-se conquistando aos poucos, ter paciência com os outros (há até uma obra de misericórdia espiritual que nos pede que soframos com paciência as fraquezas do nosso próximo!), esperar para alcançar mesmo que não seja no tempo por nós estabelecido. Quando há um ano me pediram para ser Mestre dos noviços, as pessoas mais ligadas a mim e outras do âmbito religioso/eclesiástico diziam-me: tenha paciência... Certamente que não era a paciência de ter que aceitar mas sim a paciência de levar a bom termo o que nos pedem. E ao longo do ano era o que me diziam: tenha paciência. Ao que parece, este pedido vai prolongar-se nos anos. Mas agora o discurso mudou: as pessoas dizem "vou rezar por si". Estranho. Em vez de me apoiarem na paciência que bem falta me…

A ponte de Reconcos

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Feirão está a acabar. Começam os dias mais outonais, com trovoada, frio, chuva e nevoeiro. Em Lisboa estaríamos num rigoroso Inverno! Nestes dias, apesar de poucos (para mim, Feirão sabe sempre a pouco), vieram as histórias e as memórias, o conforto da família que não se consegue ao longo do ano, com mãe, irmão, cunhada e sobrinhas. Uma das coisas de que se falou nas histórias do serão, tentando contrariar a televisão foi da ponte de Reconcos, onde passei esta manhã, a caminho de Lamego. A ponte de Reconcos era a penúltima etapa de quem vinha da cidade. De Lamego trazia-se muitas coisas, para manter e para cultivar. Chegar à ponte de Reconcos era o suspiro de chegar a casa. Fazia-se a pausa para tirar as coisas que se traziam às costas ou à cabeça. Parava-se para rir, descontrair mas, sobretudo pegar no molho e dizer: vamos lá que breve chegamos a casa. Depois de passar a ponte de Reconcos entrava-se na serra das Meadas, deixava-se Fazamões para a direita e as pessoas lá iram para Fe…

Em Feirão

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Estou em Feirão desde Domingo. Eu sonhei, Deus quis... e aconteceu. Hoje fiquei sozinho com a minha mãe e fizemos uma comidinha de tacho como mandam as leis antigas da região: massa com feijão e chouriça, feita ao lume num tacho de barro. Só posso partilhar a imagem que o cheiro e o sabor são contingentes neste mundo informático. Penso muito no que seria a minha vida aqui por estes lados... não como futuro nem como possibilidade mas so como projecção. Uma coisa é certa: o silêncio a solidão são o meu ar e mar de descanso. 

Não dar lugar ao medo

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Há uns anos, numa celebração da Palavra nos Maristas, encontrei esta reflexão, que vim hoje a descobrir ser do José Luís Nunes Martins. O nome do texto é "A razão da minha esperança". O texto não está completo mas a melhor parte, que pode ajudar à reflexão do Evangelho de hoje, deixo-a para percebermos que o medo não nos pode tirar a confiança que temos em Deus e devemos ter em nós.
Caro amigo, São muitas as provas que na vida servem para testar quem somos, a força que temos em nós e o nosso valor. Algumas vezes uma pedra gigante vem cair mesmo diante de nós... outras vezes são séries infindáveis de pequenos obstáculos no caminho... longas etapas que nos obrigam a seguir adiante sem descansar, em percursos onde quase nunca se vê o horizonte. A agitação permanente em que vivemos leva muitos a desistir de encontrar referências mais adiante, mas é preciso que nos afastemos do tempo para assim encontrarmos a posição mais segura, elevando-nos acima dos momentos passageiros para os…

Em dia de São Domingos

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Vim a Lamego com os noviços celebrar o dia de São Domingos com as nossas monjas dominicanas. Este dia de família dominicana tem várias celebrações e motivos de festa. Um deles, que cada vez mais está presente, é trocarmos SMS com mensagens dominicanas. Eu enviei a minha, manhã cedo, e recebi uma resposta que me agradou pelo conteúdo e pela ligação. Respondeu-me assim um frei de Angola: Feliz dia de São Domingos para si também Frei. Obrigado pelas vezes que comigo falou de Deus; Não se esqueça de mim quando falar com Deus!Este "trocadilho" espiritual está ligado ao que se dizia de São Domingos que só falava de Deus ou com Deus. E isto peço neste dia tão Dominicano: que saibamos falar de Deus aos outros e não os esqueçamos de falar dos outros com Deus.

Uma avó comum

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Nós, dominicanos, celebramos hoje a memória da beata Joana de Aza, mãe de São Domingos. É como uma avó comum de todos os dominicanos. Talvez se possa achar que esta mãe é santa por causa do filho mas, a verdade é que a mãe, de certa maneira, é que santificou o filho. Em Caleruega, terra onde nasceu São Domingos, diz-se que São Domingos é o santo que tornou conhecida a terra, mas a Beata Joana é que é a santa do coração. A Beata Joana distinguiu-se pela sua dedicação aos filhos e uma grande caridade para com os pobres, doentes e mutilados das guerras das conquistas e reconquistas do século XII. Por isso, faço hoje aqui memória de tão ilustre avó, pedindo-lhe que nos deixemos contagiar com a sua caridade e alegria de servir os mais pobres e necessitados.