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Pobres e humildes

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A Igreja fez ontem memória de São Martinho, uma dos mais ilustres santos da nossa Europa. Na liturgia há uma antífona que me impressiona sempre que a rezo e muitas vezes vem à minha mente: Martinho, pobre e humilde, entrou rico no céu. Pobres e humildes. Palavras doces, virtudes nobres, próprias dos grandes santos, pedras duras no caminho largo da vida, tantas vezes obstáculos para caminhar no caminho de Deus. Pobres e humildes. Uma pobreza que não é uma condição forçada de quem não tem alternativa, mas própria de quem quer ter a maior riqueza deste mundo e do outro: Deus.  Pobres e humildes. Uma pobreza que é opção de vida, tantas vezes contradição, mal compreendida por um mundo de consumo e de fartura. Uma pobreza que é irmã, partilha e solidariedade, apelo a procurarmos e desejarmos o pão de cada dia, que nos sustenta no essencial e nos liberta do excesso e do acumular de bens. Humildes e pobres. Uma humildade verdadeiramente humilde, pese a redundância. Humildade que é morrer para o …

Cotelo solidário

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Em Castro Daire está a fazer-se uma recolha de bens para enviar para os lugares onde o fogo não poupou nada. Têm levado feno, para os gados comerem e hoje recolhe-se roupa e alimentos para lhes fazer chegar para ajudar a reconstruir. Cotelo juntou-se à iniciativa e também está a recolher alimentos e roupas para enviar. Dentro da capela e fora dela, à volta dos muros e à porta das casas das pessoas, vamos vendo estes pequenos gestos de solidariedade que só ficam bem a quem tem e a quem tem o gosto da partilha.

Cinzas e dor

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Na viagem que fiz esta manhã, entre Coimbra e Feirão, o que vi foi desolador. O que poderia ser uma manhã de nevoeiro era um pesado fumo que, nuns lados, já era só o que restava do rescaldo. Ao longo da estrada árvores queimadas e postes caídos. Do pensamento só me saía a expressão “Meu Deus”. Paro em Tondela para fazer umas compras e parece que as pessoas são mudas. Ninguém fala, os ares sombrios, talvez de noites mal dormidas ou de propriedades queimadas. O fumo arde nos olhos e nas gargantas. As faúlhas são impertinentes, condensando-lhe nos sítios onde as chamas ainda moem o pouco que de verde se pode ver. Em Mortágua, aquela serração, que tinha à entrada troncos empilhados, que sempre que passo lá digo: um dia hei-de parar para tirar uma fotografia, não passava hoje de um monte de brasas já em fim de vida. O sol é só um pequeno círculo laranja, doente, sem beleza nem calor; os pássaros voam, tentando pousar em alguma réstia de verde que não há. Saio em Castro Daire para vir pela…

As contas do meu rosário

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Sempre gostei da expressão despachada, que significa "não te metas na minha vida", mas com tom de subtileza: "não são contas do teu rosário". Para um dominicano vem mesmo a calhar, uma vez que trazemos o rosário no cinto do hábito! Hoje os dominicanos celebram com festa e alegria Nossa Senhora do Rosário. A tradição diz - porque a história não consegue chegar lá - que Nossa Senhora entregou o Rosário a São Domingos para que ele o rezasse e pregasse. Por esse motivo, como disse acima, trazemos o rosário no cinto do hábito. A História diz-nos que o terço ou rosário como o temos é posterior a São Domingos, mas a mesma História diz-nos que São Domingos rezava muitas Avé-Marias ao longo do dia, lembrando-se assim de Nossa Senhora, como forma de oração e como meio de pregação junto dos hereges do seu tempo. Por isso, uma coisa é certa: foi no berço dominicano que se gerou o rosário! São Domingos, como já disse, valia-se de Nossa Senhora para o seu apostolado. Séculos ma…

Os bons não morrem

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Morreu mais uma pessoa boa. Esta pessoa, que eu hoje quero lembrar é D. Manuel Martins, primeiro bispo da diocese de Setúbal. Na minha vida cruzei-me duas com ele, em momentos circunstanciais, o que não deu para ele se lembrar de mim mas de eu me lembrar dele. Como Bispo de Setúbal foi duplamente incompreendido: de uma parte algumas correntes políticas que o apelidaram de "bispo vermelho", e também pela própria Igreja, a hierárquica, que achava que ele defendia demasiado os pobres e os trabalhadores, naqueles tempos quentes e problemáticos da outra margem. Mas o tempo, que tudo cura e reabilita, fez deste homem uma voz libertadora e ousada, sem medo dos "castigos" e represálias que pudessem vir contra ele. Como crente, como bispo, não ficou nas teorias do púlpito ou da Cátedra, não se limitou a dizer que era preciso ajudar os pobres e marginalizados, os desempregados e explorados. D. Manuel dizia e fazia. Era exemplo e dava exemplo. E assim conquistou não só o car…

Erguer o trigo

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Ia eu a caminho de Lamego, onde estive nos últimos dias, quando no Mezio vi uma coisa que há décadas não via, e que só as mulheres faziam que era "erguer o trigo". Esta expressão era dita pelas mulheres quando iam purificar os grãos de centeio ou de trigo. A técnica não podia ser mais simples e prática: num dia de vento brando, estendia-se no chão uma manta e a mulher pegava numa bacia com os grãos de trigo que tinha malhado e erguia-o mais alto que a cabeça e deixava ir caindo os grãos enquanto o vento se encarregava de levar com ele as praganas e outras impurezas leves. Como dizia, ha pelo menos mais de 20 anos que não via nenhuma mulher fazer este trabalho tão puxado e tão elegante. Mas, desta vez, apesar da técnica ser a mesma daqueles tempos, alguma coisa mudou: a senhora estava em cima do telhado plano da casa e o marido ajudava-a, ao seu lado. E ficou-me esta imagem, não sabendo eu quando é que volto a ver, se é que voltarei ver, mas deu para voltar atrás e matar a s…

Paciência e oração

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Paciência não é a minha maior virtude. Há o ditado que diz que quem espera sempre alcança, mas não me serve. Mais bem me serviria o "quem espera desespera". Mas a vida é feita de trabalho: manual, mental e também interior. Ir-se conquistando aos poucos, ter paciência com os outros (há até uma obra de misericórdia espiritual que nos pede que soframos com paciência as fraquezas do nosso próximo!), esperar para alcançar mesmo que não seja no tempo por nós estabelecido. Quando há um ano me pediram para ser Mestre dos noviços, as pessoas mais ligadas a mim e outras do âmbito religioso/eclesiástico diziam-me: tenha paciência... Certamente que não era a paciência de ter que aceitar mas sim a paciência de levar a bom termo o que nos pedem. E ao longo do ano era o que me diziam: tenha paciência. Ao que parece, este pedido vai prolongar-se nos anos. Mas agora o discurso mudou: as pessoas dizem "vou rezar por si". Estranho. Em vez de me apoiarem na paciência que bem falta me…